quinta-feira, 29 de agosto de 2019

todo dia eu escrevo o livro

há uns 15 anos, eu acho, fiz meus últimos registros no que era na época e ainda hoje é um diário.

não era como se ele fosse então um projeto deliberado de relatório para o futuro, mas hoje ele existe também como isto: um intrigante documento, bobo e sinistro, de sentimentos bobos e sinistros e, sobretudo, como o achado escavado de uma ferramenta de sobrevivência.

olhando novamente, percebo que não tinha muito constrangimento em escrever o que sentia. escrever sem reservas me ajudava de algum modo. claro que nem todos os problemas se resolviam escrevendo; eu acendia a luz e os monstros ainda estavam no quarto. mas falar a mim mesmo de forma franca afinal servia de algo. eu conversava comigo, gritava comigo, eu tentava me ouvir, me acalmar. de todo modo, havia uma certa consciência de que eu estava cuidando de mim. ponderando, analisando, em meio ao desalento. esforço organizativo? reação intuitiva? sei lá.

esses anos todos desde então, vira e mexe me pegava lamentando a perda do hábito. tentei retomar de vez em quando, sem sucesso. o que havia acontecido? talvez agora eu já não fosse tão introspectivo, talvez agora já conseguisse dizer em voz alta para outras pessoas o que antes eu só conseguia me escrever em segredo. talvez eu tivesse chegado à conclusão da confusão daquele momento. nenhuma confusão jamais foi igual, sim, mas houve confusões. houve novamente eu olhando para o mundo, sem saber o que fazer dele, nele. e se acontecia algo ruim, aqui dentro principalmente, eu sempre sentia que poderia estar fazendo esse algo a mais -- elaborando ideias, contemplando possibilidades, parando pra pensar.

deixar a torrente de pensamentos tomar conta de certo modo é o oposto do que é a meditação, mas de alguma maneira escrever, manter um diário, era como meditar. controlar a respiração, limpar a cabeça, em minha própria companhia, mais aliviado no fim, com um mantra nas mãos. inclusive talvez eu precise voltar também a meditar, pois é outra coisa que sempre me pergunto por que parei?

no fim das contas, escrever me ajudava a lidar com a exasperação, a administrar exclamações e interrogações. era estar às vezes de frente, às vezes sobre, às vezes no fundo do mar. o mar é lindo demais.

então esta é uma declaração de gratidão e amor ao diário. ao hábito de parar pra pensar, de deixar virem as palavras. uma tentativa de relação mais serena com o caos. uma meditação meio estranha. pois, como houve e há confusões, haverá, e espero poder contar sempre com um caderno e uma caneta para, na pior das hipóteses, praticar um pouco essa caligrafia que, nossa.

2 comentários:

  1. Diário é ligar os pontos entre o bobo e o sinistro. Eu sou contra a obrigação de escrever todo dia. Mas de três em três (dias, semanas, meses), é bom demais deixar o pensamento fluir no papel.

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    1. sim, esse sentimento de obrigação gera frustrações que nesse caso nem precisa, né?

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