segunda-feira, 23 de março de 2026

viagem à praia da telepatia

ícaro (o círculo)

disputava corrida conosco o relevo que se abria à direita em um declive redondo, uma pia coberta de limo em cujas paredes equilibravam-se vacas, algumas árvores que eram as próprias flores brotando de talos subterrâneos, moitas de pompom que eu gostaria de tocar se tivesse dedos gigantes, mas que do tamanho que sou também gostaria, mesmo que ao custo de não poder mais senti-las enquanto textura uniforme. nosso carro que seguia em curva e a pia que girava: quem chegaria primeiro?

-- mãe, quem você acha que chega primeiro?

-- eu acho que a gente, meu filho. o relevo vai mais devagar. mas não se esqueça das nuvens!

jonas (as ondas)

será que já haviam reclamado que o corredor molhava quando chovia? acho que sim pois tinha um toldo, mas que não resolvia. mesmo assim fiquei sentado pegando gotas no banco entre os quartos, de onde além do guarda-corpo se via a praia, na luz amarela dos postes que também iluminava a cortina de chuva. imagine ouvir dali, em uma madrugada de céu limpo e silêncio, a água cantando de longe mas não tão de longe na língua das ondas: tchau... tchau... tchau... agora, porém, também era bom senti-la de perto, enquanto batia atonal as baquetas no toldo, e em tudo, acompanhada do ribombo das nuvens (o baixo) e do uivo do vento (os sintetizadores). e de repente -- um raio! eu vi um raio, caindo no mar! jazz elétrico no espaço! seria demais se alguém mais acordasse para dançarmos?

estela (a estrela)

não era só o problema nas mãos, mas por muitos motivos nos últimos tempos se ouvia meu pai dizer: "meu corpo não é mais o mesmo". no mercadinho aquele dia foram as mãos, ele derrubou a garrafa de vinho que segurava e disse envergonhado para o funcionário que veio limpar: "meu corpo não é mais o mesmo".

de noite eu sonhei que acordava de um cochilo na mesma cama onde eu dormia e a minha vista demorava a se ajustar ao ângulo correto da realidade, de modo que eu via o quarto da pousada na diagonal. eu sacudia a cabeça e piscava em leve pânico e então passava, no que eu levantava e ia até a sala pois já estava em casa. lá estavam meus irmãos sentados em um tapete vermelho que tomava todo o espaço entre o sofá e a tv, ao lado da qual se espalhavam de um vaso os finos e longos galhos de um pé de romã. a sala, com o tapete e a árvore, na sombra quente do abajur, tinha um aspecto delicioso. na mesa de jantar, meu pai de pé dobrava roupas, devagar, mas sem dificuldade. só depois eu percebi que meus irmãos olhavam para algo na parede atrás da tv -- um sol de cerâmica pendurado, com um rosto, parecido com o que tem no the sims 4. em vez de me sentar junto a eles, cheguei mais perto para olhar de frente a escultura no topo do altar e estremeci ao ouvir nesse momento a voz dele, mas que não parecia vir de onde ele estava, dizendo: "meu corpo não é mais o mesmo".

cris (a cruz)

a queimadura foi grande mas não foi tão grave, a enfermeira falou, embora jogar água mineral tenha sido mesmo um erro. deixamos ele dormindo com meu pai, as garras de lobisomem da caravela ainda marcadas na sua barriguinha. enquanto todos escolhiam a pizza que pediríamos, em uma mesa no canto com outra mulher avistei a enfermeira, transformada na noite com o cabelo à mostra, preso para cima, uma blusa caramelo de pescoço em v, brincos como dois escudos de latão dourado. a outra mulher tinha o cabelo liso, solto, um rosto um pouco de peixe, e elas conversavam e sorriam lado a lado. avisei a minha mãe "vou no banheiro" e então fui, passando por elas apressada mas discretamente atenta ao que pudesse captar:

- aos seus pés estava uma massa arfante de pelos loiros de onde emergiam três cabeças encoleiradas de cachorro, com a língua para fora;

- elas comiam pizza de milho;

- a blusa era na verdade um macacão;

- dizia a enfermeira as palavras: "o infinito é afinal um apelido", mas não sei se ouvi direito.

eduardo (o quadrado)

-- oxente, mãe, ficou aí até agora?

-- acordei cedo, meu filho. o "fire pit" ainda estava aceso.

a diversão dela era fazer graça de meu tio dizendo essa palavra. tinha tempo que a gente não vinha na casa dele, o vampiro do riacho verde.

-- seu irmão foi pra cama enfeitiçado com as mangueiras. me perguntou se não devia ter bem mais já que cada manga é uma semente.

a fumaça perfumava o ar molhado e me deu uma vontade de tomar o cafezinho de meu tio. me aproximei de minha mãe para lhe dar um cheiro e ela enfim tirou os olhos da revista de sudoku quase toda completada para recebê-lo.

-- já arrumou as suas coisas? a gente volta pra estrada sete e meia.

tornei a entrar e, servindo a caneca, a vi da porta da cozinha, sentada em uma cadeira de praia contra a sombra assustadora do pomar, no centro do vasto quintal de terra e de mato, contemplar por um instante a aurora rosa como um boto e então o fogo e então atirar nele a revistinha.

terça-feira, 17 de março de 2026

óculos

cada vez que vou à oftalmo, minha esperança é que ela diga que meu astigmatismo aumentou. seria uma forma de justificar que ela receite novos óculos, que agora sim deem a impressão de que estou vendo bem. e, por me ver tentando hierarquizar "bem" e "melhor", eu me sinto um pouco injusto -- com os óculos atuais eu consigo de fato enxergar objetos brilhantes de forma levemente mais nítida, mesmo que a sua luz ainda pareça ecoar pelo escuro como uma dança de fantasmas, que é o que me distrai ao ponto de confundir a distração com incômodo. eu noto isso mais à noite, mas de dia também percebo que os contornos das sombras ficam menos definidos a olho nu. o que eu quero dizer a mim mesmo é que a injustiça que sinto talvez seja afinal tão pequena quanto a cura que me foi dada, já que minha expectativa era de que corrigir minha visão fosse sinônimo de deixá-la perfeita, embora eu saiba que isso é uma besteira.

sexta-feira, 6 de março de 2026

partículas

dizem que os gatos pensam que também somos gatos, mas como será que eles entendem os carros? o gato da vizinha que passa o dia na janela atrás da tela, assistindo a gente do condomínio ir e vir e os carros do condomínio ir e vir -- que diferença ele vê entre a vida da gente e a vida dos carros? como as formigas percebem o nosso tamanhão? eu me divirto pensando que para elas somos algum tipo de horror cósmico comestível, como talvez sejam todos os horrores cósmicos.

* * *

hoje tento não cair no bait de querer suspirar "poxa" por não poder lembrar o que se passa em cada livro que já li. e acontece sempre, não só os detalhes, mas como terminam, as linhas do tempo, as próprias sinopses. você vai contar para um amigo e -- peraí. já as impressões são mais difíceis de esquecer, se eu gostei ou não gostei, o sabor que ficou, e por isso acredito que, mesmo não lembrando como, todos eles nos mudam. ainda que agora descansem nas gavetas da memória, deixaram com seu toque na nossa massinha nem que seja uma marca leve de dedo, passaram como vento arrastando partículas, um cílio, um glitter, que nela se agarraram. assim como todas as nossas outras vivências, incluindo os sonhos.

terminei a leitura de herdeiros do tempo há algumas semanas e, dentre os tantos fatos épicos do romance, uma dessas partículas eu tenho trazido na mão. a história se passa num futuro em que chegou ao fim a aventura humana na terra, sobrando no espaço uma grande nave onde os sobreviventes vão se revezando em sonecas no freezer, enquanto vagam por milênios no infinito em busca de um novo lar. uma possibilidade surge ao depararem com um planeta muito semelhante ao nosso, o qual, por meio de drones, descobrem ser habitado simplesmente por uma civilização de enormes aranhas. os viajantes resolvem descer mesmo assim e, logicamente, se arrombam: ao se confrontarem, alguns são capturados, outros conseguem fugir. os prisioneiros tornam-se então objetos de estudo das aranhas, que começam a especular se o movimento de abrir e fechar a boca dos estranhos alienígenas era alguma forma de comunicação, hipótese que descartam como um tanto absurda já que, apesar de seu refinadíssimo tato, elas nada ouvem.