cláudio v. mendes, tradutor e pesquisador de desenho de portas, se mudou para amarante "por algumas semanas" em razão de seu mais recente estudo: os portões de ferro verde que fronteavam os pelo menos doze prédios erguidos no fim do último século em diferentes partes da península, pelas mãos de um grupo impreciso de construtores que se acreditava haverem sido um círculo de magos. antes de qualquer visita ao cemitério de são nicácio, onde o primeiro portão da lista estaria guardando uma capela, ficou sabendo pelos vizinhos que em sua nova casa, que tinha um total de três portas iguais de quatro painéis de castanho, uma delas dando para um volumoso jardim ao fundo tomado de forma brilhante pelo mato, morara nina maria tereza da paz, afilhada do senhorio e herdeira anterior do imóvel, assim como da recém-demolida botica anexa, falecida havia pouco, nos anos da peste. de gosto famoso por anedotas sombrias, era a autora do livro o pano, que prometia com entusiasmo a todos um dia escrever, sobre uma tecelã dedicada à fabricação de lençóis para fantasmas, cujas histórias de quando vivos nina maria contava a cada pessoa que conhecia.
***
cada um dos dez decidiu que o capítulo 10 de seu próximo livro formaria com o capítulo 10 dos outros nove uma sequência que poderia ser lida como um outro livro. os capítulos às vezes tinham poucas linhas, como em perduardo, de lucas da luz, com a única e célebre frase: "e seguiram, contudo, trabalhando as formigas". a contragosto da maioria, saiu em 1987 a 1ª edição dos capítulos em série, em um volume com 88 páginas, sem contar o robusto posfácio do crítico laércio da cruz neto, e uma capa de cor verde teal.
***
como em todos os dias desde que sumira gu pé, tê té, que acordara ainda na hora da primeira luz, escrevia uma carta, longa, recontando em minúcias de fatos e de sentimentos o motivo do pedido de ajuda, enquanto roía uma das broas-de-cinzas assadas no escuro de ontem por pã lé, e ao fim da qual ainda tinha o cachimbo apagado no canto da boca, o que lhe trazia conforto. cada carta devia chegar por meio de seu próprio mensageiro, para não cansar um só levando todas, à mão aberta de cada fazenda, que eram "tantas! parecem frutinhas no tronco da ontipotica!", e pã lé riu um pouco quando tê té falou assim.