segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

janelas

o apartamento em que eu moro fica na altura do segundo piso. dos quartos que dão para o fundo, consigo ver alguns prédios da vizinhança, um pouco ao longe, e os quintais de duas casas coladas com o condomínio -- além de telhados, parabólicas, caixas d'água, muros cercados, uma torre de rádio e a cruz de uma igreja. um dos quintais tem dois pés de pinha e o outro, logo ao lado, tem muitas plantas, entre as quais se destacam uma grande mangueira e uma grande aroeira, que parece estar crescendo ainda mais. nessas árvores vêm pousar durante o dia vários tipos de pássaros; os anus-pretos eu gosto muito pois estão sempre em bando, não só empoleirados nos galhos cantando seu "oooi", mas também pulando pelo descampado de um terceiro quintal, que é meio que uma continuação do segundo e se abre mais debaixo da janela da área de serviço.

de noite um pouco antes da hora de dormir, às vezes fico observando as luzes dos apartamentos distantes. hoje em dia menos brancas, a maioria amarela, algumas tão brilhantes que parecem quartos pegando fogo. é divertido ver o seu circuito, se acendendo e se apagando de repente aqui e então ali, e imaginar o trânsito entre os cômodos, quem acabou de se lavar no banheiro para ler fresquinho, quem precisou ir suspirando à cozinha cuidar da ceia da criança, na sequência simultânea de um lento pisca-pisca. tem vezes que penso ter visto alguém ligando um abajur na sala, mas era só uma tv mudando de cena.

enquanto isso, os quintais já estão escuros, igualmente hipnóticos e imprevisíveis, no que lhes ajudam a música dos grilos querendo atenção em seus cantos e os vultos dos morcegos navegando pelos ecos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

estrelas

não sei se é assim que funciona o desejo de quem tem carro, mas numa noite como essa, em que as estrelas brilham tanto, a vontade que eu tenho é de dirigir imediatamente para vê-las ainda melhor em algum lugar mais escuro que a minha janela. é uma coisa tão linda um céu estrelado, e da mesma forma saber que é assim que ele sempre está, isso me consola.

muitas vezes me pego fantasiando com a liberdade de ter um carro, o poder de cruzar distâncias relativamente longas naquele exato momento -- se você não tiver nada mais urgente para fazer, é claro, como simplesmente ficar em casa. sair descalço na madrugada, ouvindo uma música, em seu pequeno quarto ambulante, como uma nave viajando a outro mundo, além do véu de luz das ruas.

de fato, o carro da escapada noturna parece muito diferente do carro das tarefas diurnas, embora quantas vezes eu já tenha também ido à praia de dia com o carro que não tenho. inclusive, numa noite como essa, a praia longe seria um bom destino aonde ir, escutar o som do mar enquanto observamos ele e eu o creme de radiação espalhar-se pela distorção do espaço e vir cintilar por nós aqui neste planeta, de tantos olhos astigmáticos e peixes carregando lâmpadas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

pedras

botando o ouvido contra a pedra, pedro disse que podia ouvi-la dizer que dizia sua avó que certa feita sobre ela veio dormir um t-rex. "calado mas muito educado, foi a única vez que nos tocamos, um bicho desses e eu". embora também se recordasse da noite em que passou pertíssimo uma manada de paquicefalossauros, quer dizer, eram três uma manada? "assustados, parecia, tramando ao luar, seus excelentes capacetes de sílex". fazia cinco minutos que pedro ouvia a pedra, no que pati se afastara para enfim fechar um beque na sombra manchada de luz debaixo da árvore, de vez em quando olhando para ele, acocorado sob o sol, de vez em quando olhando para ela, sentada em um tapete de magnólias, tentando lhe falar com as sobrancelhas.

***

pati engasgou com a fumaça um pouco enquanto riam da lembrança de seu pai, quando dizia que de sacramento, minas gerais, a sacramento, califórnia, dava um milhão e meio de quilômetros aproximadamente, "a depender do caminho".

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

risos

 "isso fez os dois rirem."

li recentemente o planeta do exílio e essa frase é, para mim, um dos grandes momentos desse livro, e também de muitos outros. narra a reação de dois personagens, quando, em meio a uma conversa, um deles comenta sobre quão diferente era o clima em seu planeta natal - lá o inverno durava apenas 90 dias, enquanto aqui, em sua nova casa, se prolongava por anos. os dois acham graça de um inverno tão curto. os personagens são uma indígena de pele clara e um alienígena de pele escura, no florescer de seu relacionamento. seus povos estão tentando ver além da má ideia que fazem um do outro e unir-se em defesa contra um agressor em comum. não é nenhum tropo novo, mas a frase, assim, delicada, tomando todo um parágrafo, pontuou a cena com a beleza literária de revelar outras belezas, que às vezes parecem óbvias. o entendimento que os fez rir juntos da mesma coisa trouxe um calor que aqueceu a ambos (e a mim, tadinho) diante do longo frio vindouro.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

árvores

"como desenhar uma árvore" -- se você já viu uma árvore, é só desenhá-la, irmão.

***

ainda durante a infância, aprendiam que, ao morrer, se tornariam árvores. usavam a mesma palavra para broto e velhice e, se você morria ainda semente, havia espíritos para guiá-lo na jornada de quebra da sua dormência no além do "grande mato". ouviam-se das árvores segredos do fundo da terra e do topo do céu, que era de onde vinha a luz. toda madeira cortada e toda madeira queimada era um presente dos que já se tinham ido, que depois cada um retribuía com a sua própria; era um orgulho poder virar boa madeira, para sua família e para a cidade. os seus frutos, ao comê-los, se dizia que espalhavam novas almas, até mesmo os que, a princípio, davam dores de barriga. nas várias artes, não era raro o tema das árvores, contempladas desde as suas formas mais frondosas às lenhosas mais singelas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

o caso das baratas

tamanho

um dos problemas para as baratas, eu acho, é que elas são grandes demais para uma "praga" doméstica. passeiam pelos mesmos lugares que as formigas -- o lixo, os ralos, as bananas na fruteira, nosso corpo enquanto dormimos. e, no entanto, as formigas nos despertam menos pânico, talvez por não correrem ou voarem tanto e assim parecerem menos imprevisíveis, ou seja, menos ameaçadoras. mas eu penso que tem importância o tamanho. queria saber de modo geral na escala de horror como se reage por aí às baratas menores, aquelas amarelas que já dormem nos armários.

a barata maior é tão grande que dá para observá-la morta, emborcada, ela já seca, algumas patas levadas pelas formigas, e ver com certa clareza os detalhes da sua barriga, a arquitetura do seu esqueleto, um trabalho de design não menos que formidável.

voo e antenas

elas voam pesadas e controladas por mãos um pouco erráticas como os drones, as antenas buscando no ar sinais como qualquer outra antena. nesse caso, compreensível o receio.

sujeira

é claro que as obras humanas também são obras divinas porque o desejo e as mãos humanas também são obras divinas. negar isso seria como dizer que os humanos também são deuses por criar as próprias obras. mas não consigo resistir ao pensamento de que a obra divina "barata" não foi necessariamente planejada para a obra divina "esgoto".

sem mestres

ao ver as formigas juntas, em longas filas, coordenadas para a carniçagem de cadáveres inteiros às vezes ainda vivos, se cheirando em busca de notícias, nas costas os ovinhos de arroz umas das outras, nos é dada a chance de nos lembrarmos de sua força -- de sua eficientíssima união familiar. usamos para elas expressões como castas, colônias, exército e rainha, mas dificilmente comparamos o medo que nos causa um "inimigo" tão codificado por nós mesmos para a dominação com o que nos causa uma única barata no meio da cozinha. uma única barata, saindo do seu abrigo para vencer mais uma noite, ganhou o poder tremendo de nos tirar a estabilidade, nos obrigar a querer resolver de imediato uma situação -- que é, para mim enquanto pessoa, sempre um dos mais terríveis desafios.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

banho

ultimamente, uma das melhores partes do dia e, portanto, uma das melhores coisas da vida tem sido tomar banho à luz de vela. espero às vezes escurecer com essa desculpa, agora no verão um pouco antes das 18h30. uma única vela comum, que eu apago quando termino e vai durando semanas. gosto de botar uma musiquinha, que talvez dance com a chama amarela, um incenso com cheiro de mato, meus preferidos. isso me traz um grande aconchego, essa combinação de delícias que depois eu percebi que é como se fosse dos quatro elementos (os quatro naipes da magia): a água do banho, o fogo da vela, a terra do incenso, o ar do saxofone. mas gosto de tomar banho de manhã ou de tarde também, o barulho só do chuveiro e talvez de alguns pensamentos, é de boa. e nesse calor então.