o apartamento em que eu moro fica na altura do segundo piso. dos quartos que dão para o fundo, consigo ver alguns prédios da vizinhança, um pouco ao longe, e os quintais de duas casas coladas com o condomínio -- além de telhados, parabólicas, caixas d'água, muros cercados, uma torre de rádio e a cruz de uma igreja. um dos quintais tem dois pés de pinha e o outro, logo ao lado, tem muitas plantas, entre as quais se destacam uma grande mangueira e uma grande aroeira, que parece estar crescendo ainda mais. nessas árvores vêm pousar durante o dia vários tipos de pássaros; os anus-pretos eu gosto muito pois estão sempre em bando, não só empoleirados nos galhos cantando seu "oooi", mas também pulando pelo descampado de um terceiro quintal, que é meio que uma continuação do segundo e se abre mais debaixo da janela da área de serviço.
de noite um pouco antes da hora de dormir, às vezes fico observando as luzes dos apartamentos distantes. hoje em dia menos brancas, a maioria amarela, algumas tão brilhantes que parecem quartos pegando fogo. é divertido ver o seu circuito, se acendendo e se apagando de repente aqui e então ali, e imaginar o trânsito entre os cômodos, quem acabou de se lavar no banheiro para ler fresquinho, quem precisou ir suspirando à cozinha cuidar da ceia da criança, na sequência simultânea de um lento pisca-pisca. tem vezes que penso ter visto alguém ligando um abajur na sala, mas era só uma tv mudando de cena.
enquanto isso, os quintais já estão escuros, igualmente hipnóticos e imprevisíveis, no que lhes ajudam a música dos grilos querendo atenção em seus cantos e os vultos dos morcegos navegando pelos ecos.
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