dizem que os gatos pensam que também somos gatos, mas como será que eles entendem os carros? o gato da vizinha que passa o dia na janela atrás da tela, assistindo a gente do condomínio ir e vir e os carros do condomínio ir e vir -- que diferença ele vê entre a vida da gente e a vida dos carros? como as formigas percebem o nosso tamanhão? eu me divirto pensando que para elas somos algum tipo de horror cósmico comestível, como talvez sejam todos os horrores cósmicos.
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hoje tento não cair no bait de querer suspirar "poxa" por não poder lembrar o que se passa em cada livro que já li. e acontece sempre, não só os detalhes, mas como terminam, as linhas do tempo, as próprias sinopses. você vai contar para um amigo e -- peraí. já as impressões são mais difíceis de esquecer, se eu gostei ou não gostei, o sabor que ficou, e por isso acredito que, mesmo não lembrando como, todos eles nos mudam. ainda que agora descansem nas gavetas da memória, deixaram com seu toque na nossa massinha nem que seja uma marca leve de dedo, passaram como vento arrastando partículas, um cílio, um glitter, que nela se agarraram. assim como todas as nossas outras vivências, incluindo os sonhos.
terminei a leitura de herdeiros do tempo há algumas semanas e, dentre os tantos fatos épicos do romance, uma dessas partículas eu tenho trazido na mão. a história se passa num futuro em que chegou ao fim a aventura humana na terra, sobrando no espaço uma grande nave onde os sobreviventes vão se revezando em sonecas no freezer, enquanto vagam por milênios no infinito em busca de um novo lar. uma possibilidade surge ao depararem com um planeta muito semelhante ao nosso, o qual, por meio de drones, descobrem ser habitado simplesmente por uma civilização de enormes aranhas. os viajantes resolvem descer mesmo assim e, logicamente, se arrombam: ao se confrontarem, alguns são capturados, outros conseguem fugir. os prisioneiros tornam-se então objetos de estudo das aranhas, que começam a especular se o movimento de abrir e fechar a boca dos estranhos alienígenas era alguma forma de comunicação, hipótese que descartam como um tanto absurda já que, apesar de seu refinadíssimo tato, elas nada ouvem.
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