domingo, 20 de setembro de 2026

verdade intransmissível

no desejo de não mentir ela lhe diria: eu não te amo. mas parecia saber algo mais: que o amava, que o amava. só que era como se as coisas do mundo não fossem feitas para nós, só que era como se tivéssemos que transigir com aquilo para o qual no entanto nascemos, só que de súbito era como se o amor fosse a desesperada forma canhestra que o viver e o morrer tomam, só que era como se até mesmo nesse momento o absoluto nos desamparasse; e a verdade para sempre intransmissível que havia no coração era o peso com que amamos ou não amamos.

(clarice lispector, a maçã no escuro)

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